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A cidade inteligente recolhe dados dos seus habitantes criando soluções

Criando as cidades do futuro

A cidade inteligente conta com a colaboração de seus habitantes

Em 2017, Boston estava em uma encruzilhada em relação à própria metodologia de planejamento e desenvolvimento de cidade inteligente. Nos anos anteriores, uma série de iniciativas foi implementada para otimizar as operações com funções analíticas e dados, e o retorno foi expressivo. Agora, os funcionários enxergavam as possibilidades tecnológicas de criar serviços novos e aprimorados para seus residentes.

Boston lançou um desafio aos tecnólogos, cientistas, pesquisadores, jornalistas e ativistas de cidades inteligentes para que propusessem ideias que engajassem seus cidadãos:

"Ficaremos felizes se você tiver uma tecnologia que possamos usar internamente, algo que fará os departamentos municipais funcionarem com mais facilidade", declara o Boston Smart City Playbook . "Mas ficaríamos ainda mais felizes se você conseguisse resolver os problemas dos cidadãos".

Globalmente, existem muitas iniciativas de cidades inteligentes, mas os resultados até agora têm sido decepcionantes. Apareceram poucas soluções sustentáveis e reproduzíveis para melhorar a maneira como as pessoas interagem com suas cidades, seja como espaços físicos ou sociais, ou para remodelar a vida urbana de uma forma fundamental. Quando Boston fez uma avaliação da realidade e lançou um chamado à ação, talvez, tenha sido um bom começo para redirecionar e reenergizar os esforços em relação aos empresários que estão tentando acompanhar as disrupções digitais; aos que precisam se deslocar, competindo por vagas de estacionamento e transporte público; aos moradores preocupados com o crescimento desordenado, com aluguéis acessíveis e com a sustentabilidade; ou aos cidadãos comuns, preocupados com a segurança nas ruas. Mas, aqui e ali, os defensores da cidade inteligente, dentro e fora do governo, descobriram que uma peça chave estava faltando: a participação dos milhões que vivem, trabalham e buscam entretenimento nos espaços urbanos.

Da mesma forma que as empresas estão adotando a ideia de um futuro baseado na experiência do cliente, as cidades precisam desenvolver uma experiência urbana colaborativa, responsiva e personalizada junto com os cidadãos. "Nossos cidadãos exigem que façamos uso das tecnologias mais recentes para o benefício deles", disse Harald Wouters, consultor e ex-estrategista sênior de desenvolvimento urbano de 's-Hertogenbosch, uma pequena cidade dos Países Baixos. "Se nós não nos adaptarmos à nova onda digital de desenvolvimento, as autoridades públicas perderão totalmente a relevância".

Mas as cidades devem adotar uma abordagem mais proativa para avançar neste futuro, em vez de esperar, como normalmente fazem, que os cidadãos ou as empresas (especialmente as empresas de tecnologia) tomem a iniciativa de trazer ideias. Da mesma forma que empresas estão deslocando seus objetivos de oferecer produtos acabados para fornecer plataformas abertas – onde clientes podem desenvolver e usar produtos e serviços em conjunto, acessar dados relevantes e interagir diretamente entre si para criar seu próprio valor – as cidades precisarão de plataformas para coletar entradas (incluindo dados) da população e usar isso para projetar em conjunto novas maneiras de viver, trabalhar e fazer negócios. Elas terão que aprender a arte do retorno, como as empresas estão fazendo com seus clientes, e entregar valor na forma de maior capacidade de resposta, experiências personalizadas, maior inclusão e conexão com a comunidade.

As cidades que não conseguirem fazer essas mudanças se arriscam a perder não apenas a confiança dos cidadãos, mas também os ganhos potenciais da transformação urbana.

La ciudad del futuro escucha a las personas (y a los datos)

Uma cidade inteligente percebe e responde aos padrões que seus cidadãos criam quando viajam, trabalham, compram e buscam entretenimento. No entanto, nenhuma cidade inteligente pode conseguir isso sem dados em tempo real sobre infraestrutura, habitantes e atividades. "As cidades prosperaram nos últimos 200 anos tendo acesso a importantes recursos de infraestrutura como hidrovias, transportes, empregos", disse Kirk Talbott, CIO da Metropolitan Atlanta Rapid Transit Authority e antigo vice-CIO e diretor executivo de cidades inteligentes da cidade de Atlanta. "Os próximos 100 anos serão marcados pelo maior acesso a informações. Esse será um dos fatores decisivos de sucesso ou fracasso no futuro".

 
As pessoas se perguntam por que, por exemplo, enquanto a Google e a Amazon usam modelagem preditiva para sugerir o que os usuários desejam escrever ou precisam comprar, o governo local não pode proativamente tampar um buraco na rua. "As cidades cresceram sem suficiente respeito por seus cidadãos", disse Ivan Caballero, CEO do Citibeats que ajuda cidades a desenvolverem plataformas e aplicativos móveis de engajamento dos cidadãos e funções analíticas do serviço público. "E agora esses cidadãos estão exigindo mais".
 
Mais ainda, de acordo com Caballero e outros defensores de cidades inteligentes, significa ter um ambiente que os cidadãos possam modelar para benefício próprio usando dados, seja contribuindo ativamente com opiniões sobre planos de desenvolvimento de um novo bairro ou passivamente, fornecendo dados de localização do veículo para que a cidade faça a gestão dos sinais de trânsito. Uma pesquisa com mais de 6.000 cidadãos de Austrália, França, Alemanha, Singapura, Reino Unido e Estados Unidos descobriu que a maioria esmagadora das pessoas deseja o fornecimento digital de serviços públicos, maior personalização e maneiras mais seguras e fáceis de compartilhar e acessar dados. Os resultados também sugerem uma inexplorada disposição para contribuir com os esforços digitais. Por exemplo, 42% disseram que usariam dispositivos de Internet das Coisas (IoT) para compartilhar dados pessoais em troca de descontos ou de melhorias de serviços, e 45% participariam de grupos de foco ou comitês para melhorar um serviço utilizado.
 
Para a maioria, entretanto, as cidades não exploraram as maneiras de envolver os cidadãos nas iniciativas de cidades inteligentes. "O papel essencial dos cidadãos no desenvolvimento de uma cidade inteligente não é bem estudado", escreveu um grupo de pesquisadores no periódico Business & Information Systems Engineering em 2018, acrescentando que as cidades inteligentes estão fracassando em atingir seus objetivos porque não envolvem adequadamente os cidadãos ou não levam em conta o impacto dessas iniciativas sobre eles.
Há, entretanto, alguns experimentos de cidades inteligentes que têm como objetivo validar formas de usar novas tecnologias, como realidade virtual (RV) e inteligência artificial (IA), bem como uma série de novas fontes de dados, para engajar a participação dos cidadãos:
  • Nos Países Baixos, uma nova lei exige que os cidadãos sejam envolvidos no desenvolvimento urbano desde os primeiros estágios. O site do governo holandês explica um conceito chamado "do-ocracy", que assume que os cidadãos rejeitam "soluções padrão para tudo" e desejam se engajar com "autoridades que pensam junto com eles". Em ‘s-Hertogenbosch, a equipe de Wouter fez experiências com uma realidade combinada. "Se vamos desenvolver moinhos de vento ou um novo arranha-céu, exploramos maneiras pelas quais os residentes podem ver qual vai ser a aparência disso ou o seu impacto, de forma que possamos entender melhor suas necessidades e preocupações", ele explica. "Eles podem, de forma virtual, andar pelo bairro ou passar de bicicleta por um novo loteamento para experimentar as mudanças", e a cidade coleta os feedbacks de pesquisas ou reuniões presenciais.
  • A Citibeats está trabalhando com municípios de todo o mundo para entender melhor o que os cidadãos querem e engajá-los mais diretamente nas soluções. A plataforma deles utiliza IA para analisar textos de múltiplas fontes, incluindo mídias sociais, transcrições de audiências públicas ou linhas de atendimentos ao cidadão e chatbots, para descobrir, categorizar e sintetizar as maiores preocupações dos habitantes locais. Em 2017, a plataforma da Citibeats identificou a mobilidade como a maior preocupação de Barcelona, Espanha, o que levou a organização a desenvolver um aplicativo móvel que os indivíduos podem baixar para participar da solução do problema. O aplicativo permite que os usuários saibam se há um gargalo na rota escolhida, redireciona-os para a melhor opção de transporte público, em lugar de utilizar um táxi, e os recompensa com pontos que podem ser resgatados no comércio local, de acordo com quanto contribuem para aliviar o problema (quanto mais forte o gargalo, mais pontos as pessoas obtêm por usar o transporte público).
  • Na Nova Zelândia, os conselhos municipais de Christchurch, Auckland e Wellington estão compartilhando dados e pesquisas entre si, bem como com empresas parceiras no mundo todo, para criar um piloto e implementar diversos projetos focados no cidadão. Até agora, Christchurch transformou a maneira pela qual fornece 46 serviços, oferecendo aos 380.000 cidadãos uma série de opções, incluindo aplicativos e sites, para interagir com a cidade. Auckland instalou sensores para monitorar as condições das águas para recreação e oferecer alertas de segurança e informações sobre a qualidade da água em tempo real para seus cidadãos, bem como fornecer dados em tempo real sobre transportes públicos e congestionamentos. Wellington, por sua vez, apresentou uma versão RV da capital que permite que as pessoas interajam com os dados da cidade para entenderem os problemas e as ideias para o futuro.
  • Medelín, na Colômbia, talvez fique atrás de algumas de suas parceiras da América Latina em quantidade de projetos de cidade inteligente, mas está liderando no que se refere à adoção desses projetos pelos cidadãos, de acordo com um relatório de junho de 2018 feito pelo McKinsey Global Institute. A Medellín Ciudad Inteligente trabalha em parceria com governo, universidades locais e organizações sociais para promover governança transparente e por meio de dados abertos, participação dos cidadãos e inovação e colaboração entre indivíduos e comunidades. A cidade tem seu foco na recuperação urbana de baixo para cima, utilizando crowdsourcing para engajar os cidadãos das áreas mais vulneráveis da cidade em projetos de transformação, como escadas rolantes, bondes e escolas e bibliotecas com recursos tecnológicos. O portal da cidade MiMedellin oferece aos cidadãos uma forma de darem feedback e votarem soluções em diversas questões, como qualidade do ar e transporte coletivo.
 
Seul, na Coreia do Sul, está entre as cidades grandes mais avançadas na utilização de tecnologia para envolver os cidadãos na definição das prioridades municipais. A capital sul coreana oferece o aplicativo mVoting, que permite aos usuários avaliarem as propostas de políticas locais (que podem ser pesquisadas por localização geográfica ou popularidade), como melhorias em bibliotecas públicas, novas rotas de ônibus, políticas anti-fumo ou currículos escolares. Os usuários também podem fazer as próprias propostas e votar naquelas que querem que sejam implantadas. Embora não seja um processo de votação oficial, essa iniciativa ajuda a definir as decisões dos funcionários. Algumas centenas de propostas já foram implementadas até agora.
 
De acordo com a vice-presidente do Gartner Research, Bettina Tratz-Ryan, Seul está emergindo como um modelo para outras cidades inteligentes com sua abordagem baseada na comunidade, de baixo para cima, que envolve os habitantes no projeto e no desenvolvimento da experiência urbana, em vez de ser um esforço de cima para baixo, baseado em tecnologia ou infraestrutura. Entretanto, em muitos lugares, "os cidadãos são normalmente considerados usuários, testadores ou consumidores em vez de produtores e fontes de criatividade e inovação", de acordo com a pesquisa feita por Ignasi Capdevila da Paris School of Business e Matias I. Zarlenga da Universidade de Barcelona no  Journal of Strategy and Management.
 
Um motivo: a primeira onda da inovação digital urbana foi, muitas vezes, criada pela indústria privada com seus próprios objetivos de lucratividade. Grandes empresas de tecnologia, startups e pesquisadores, todos têm tentado deixar suas marcas no mercado de cidades inteligentes. Enquanto isso, as cidades não fizeram um bom trabalho em organizar esses esforços em benefício próprio ou em criar estratégias claras relativas ao futuro que desejam construir.
 
Além do mais, os projetos únicos que predominaram somente solucionavam problemas únicos, em vez de reinventar a maneira como as cidades poderiam se desenvolver.
 
Enquanto isso, algumas iniciativas de cidades inteligentes criaram repercussão em meio a preocupações de que não levaram em conta as inquietações dos cidadãos sobre privacidade e uso de dados. Por exemplo, questões sobre dados pessoais dispararam uma campanha online dos habitantes de Toronto para parar o desenvolvimento do Quayside, uma propriedade à beira do lago sob contrato da Sidewalk Labs, subsidiária da Alphabet, o conglomerado da Google.
 
Preocupações semelhantes levaram algumas prefeituras a definir os direitos digitais dos cidadãos. Em junho de 2018, o vice-prefeito de Amsterdã, Touria Meliani, começou a liderar o desenvolvimento de uma estrutura política de cidade digital que descreve valores e normas que a cidade espera incorporar em sua infraestrutura digital, como o uso de sensores e dados em espaços públicos urbanos. Esses princípios cobrirão a coleta, disponibilidade e privacidade de dados, bem como o banimento do rastreamento de Wi-Fi. Eles se baseiam em um manifesto desenvolvido pelo Amsterdam Economic Board em cooperação com cidadãos locais que demanda transparência, responsabilização e ética na coleta e no uso de dados de cidades inteligentes. Amsterdã também é pioneira em outras soluções que tornam a cidade e os provedores de tecnologia responsáveis pelo uso dos dados, como auditorias isentas para assegurar que os algoritmos de Machine Learning não são tendenciosos em relação a áreas ou problemas privilegiados.
 
Os cidadãos são, muitas vezes, considerados usuários, testadores ou consumidores, em vez de produtores e fontes de criatividade e inovação.
Ignasi Capdevila, Paris School of Business, e Matias I. Zarlenga, Universidade de Barcelona, Journal of Strategy and Management

A cidade como plataforma

Projetos distintos desenvolvidos para entender melhor as necessidades dos cidadãos e engajá-los nas soluções são o pontapé inicial. No fim das contas, entretanto, as cidades precisarão pensar grande e oferecer plataformas que permitam aos cidadãos participarem da criação da sua experiência urbana.

No setor privado, as empresas estão criando plataformas abertas para seus clientes, que podem contribuir diretamente no design, na produção ou no marketing de produtos e serviços, ou simplesmente concordar em deixar as empresas usarem seus dados para formular e fornecer produtos e serviços. Um modelo comercial de plataforma cria valor dando suporte a trocas entre dois ou mais grupos, normalmente produtores e consumidores. A plataforma fornece estrutura, padrões e protocolos que permitem uma rede de interações desse tipo em grande escala. No segmento de fitness, por exemplo, as empresas fornecem plataformas para que desenvolvedores criem aplicativos que permitam aos usuários se sentirem conectados por meio de dados, como seus recordes pessoais, rotas criadas em crowdsourcing e competições sobre quem é melhor. Em alguns casos, os clientes podem se juntar para executar ações próprias, organizando-se em tribos digitais para fornecer soluções.

No caso de uma cidade, os defensores visualizam ecossistemas nos quais cidadãos, empresas, pesquisadores universitários e outros podem inovar em conjunto para solucionar problemas urbanos. A TM Forum, uma associação de empresas de telecomunicações, descreve o conceito em seu manifesto City as a Platform, como uma "estrutura colaborativa e compartilhada entre residentes, setor público e privado para catalisar o resultado desejado de sustentabilidade, inclusão e inovação dirigida, que beneficia as cidades e seus habilitantes". Adaptando os princípios de plataformas comerciais para o ambiente urbano, as cidades podem se tornar hubs de inovação, gerando ideias para a gestão dos desafios da vida urbana e melhorando sua qualidade.

Tampere, na Finlândia, por exemplo, está construindo plataformas com temas selecionados (atualmente, saúde e bem-estar, atendimento ao consumidor, defesa e segurança pública e mobilidade inteligente) para criar uma base para empresas, universidades e outros poderem experimentar soluções digitais para a cidade e seus habitantes. As plataformas empregam diversas abordagens de co-criação comuns no setor privado, incluindo desenvolvimento ágil e gerenciamento de projetos, hackathons e uma abordagem aberta de inovação que permite que empresas, pesquisadores universitários e líderes municipais definam em conjunto um modelo de IoT para o futuro (veja "As ruas de Chicago como laboratórios de inovação").

Uma plataforma oferece um modelo digital em 3D de Tampere, baseado em dados abertos, que pode ser livremente acessado por empresários e habitantes da cidade e usado para demonstrar ideias para o desenvolvimento da cidade, como uma nova linha de bonde ou um distrito planejado à beira do lago, chamado Hiedanranta. "Cada usuário pode pesquisar os desenvolvimentos relevantes para sua própria vizinhança ou local de trabalho", diz o representante da cidade. "Isso torna mais fácil para os cidadãos contribuírem para o planejamento urbano". Tampere também está criando uma plataforma IoT (construída na sua rede de luzes de trânsito) que pode ser integrada com outros sensores e aplicativos, tornando mais fácil para empresas e pesquisadores testarem seus novos projetos ou produtos.

 

As ruas de Chicago como laboratórios de inovação

A abordagem "cidade como plataforma" pode ser usada para tratar uma série de questões urbanas com mais foco no cidadão. "Não há muitos lugares onde se possa testar uma ideia nova e potencialmente maluca que se deseja incluir na infraestrutura da cidade", disse Charlie Catlett, cientista da computação sênior do Argonne National Laboratory, do U.S. Department of Energy, e membro sênior do Mansueto Institute for Urban Innovation da University of Chicago. "À medida que interagimos com a cidade em relação aos desafios enfrentados, torna-se cada vez mais claro que um recurso de medição flexível e programável seria essencial".

Aí entra a "Matriz das Coisas" (AoT – Array of Things) de Chicago. Alguns chamam o projeto, liderado por Catlett, de um monitor fitness para cidades. Sensores reúnem dados sobre luz, ar, temperatura da superfície, vibrações, pressão barométrica, intensidade de sons e, usando a IA implementada nos sensores, tráfego de veículos e pedestres. A rede foi imaginada não somente como uma ferramenta para melhorar a maneira como a cidade persegue seus objetivos de planejamento urbano e sustentabilidade, mas também para melhorar a qualidade de vida diária dos habitantes e das comunidades.

"Em cinco anos, se tivermos sucesso, dados, aplicativos e ferramentas que virão deste projeto estarão integrados à vida dos habitantes e à maneira como a cidade cria serviços e políticas públicas", disse a ex-CIO de Chicago, Brenna Berman, quando os primeiros nós (como as unidades de sensores são chamadas) começaram a funcionar em 2016. "Isso será visto como um serviço público, do mesmo modo que vemos a iluminação das ruas e nossos ônibus. Eles estão aqui para nos servir e nos ajudam a atravessar a cidade com mais facilidade".

A equipe por trás da AoT mostra o potencial da colaboração ampla. Pesquisadores afiliados ao Argonne National Laboratory e à University of Chicago estão desenvolvendo a Plataforma do Abano (Waggle Platform – assim chamada devido à dança realizada pelas abelhas para comunicar aos membros da colmeia a localização de fontes de alimentos) com parceiros de dezenas de universidades em todo o mundo. Eles também recebem apoio de grandes players da indústria de tecnologia como Microsoft, Cisco, Intel, Schneider Electric e Motorola Solutions. O Departamento de Transporte de Chicago tem a tarefa de instalar os nós nos postes de iluminação em toda a cidade e gerenciar o portal de dados, que disponibilizará os dados da AoT ao público. O Departamento de Inovação e Tecnologia gerencia um portal de dados que integra os dados disponíveis da AoT com outros dados de Chicago para uso do público.

Alguns dos primeiros nós foram instalados no bairro de Pilsen, Chicago, onde a asma é mais predominante e uma clínica de saúde local anseia por mais dados. Empresas privadas e sem fins lucrativos imaginam usar os dados para desenvolver aplicativos inovadores, como um aplicativo móvel que permite aos habitantes rastrearem sua exposição a certos contaminantes aéreos ou trafegar pela cidade evitando as regiões com congestionamentos ou barulhos excessivos ou, ainda, por rotas com mais espaços verdes. Em 2018, o projeto lançou uma API para o acesso de dados, junto com tutoriais e documentação, possibilitando que os desenvolvedores começassem a usar em seus aplicativos os dados coletados quase em tempo real pela AoT. A cidade planeja integrar esses dados com outros conjuntos de dados públicos e tornar a interface mais amigável e acessível para um público amplo, de cientistas e desenvolvedores de aplicativos ao público em geral.

Hoje, mais de 100 nós de AoT estão instalados, com planos de chegar ao total de 200 no final do verão de 2019. Os líderes do projeto fizeram reuniões e workshops para criar relacionamentos com os habitantes e identificar as prioridades das comunidades, que variam de bairro a bairro. Grupos de habitantes e de comunidades também podem requisitar, pelo site do projeto, a instalação de nós em um lugar específico.

Quatro passos à frente

Plataformas de cidades inteligentes são um meio, não um fim. Elas representam uma mudança fundamental em como as cidades podem resolver as necessidades mais urgentes de seus cidadãos reunindo-os – assim como empresas e pesquisadores em condições de atender às necessidades deles – por meio de trocas de dados e informações.

Uma plataforma interoperável, totalmente conectada e engajadora levará anos para se desenvolver e as cidades precisarão adotar uma abordagem de aprimoramento em iterações. "Em nosso caso, começamos de baixo para cima, integrando os casos de utilização em execução na cidade", disse Wouters. Há uma série de ações que líderes municipais podem executar agora para seguir com mais inteligência rumo a esse futuro mais focado no cidadão, possibilitado pela plataforma:

  • Comece com os problemas, não com as soluções. "Descubra qual problema você deseja resolver ou quais informações deseja saber", aconselha Talbott. Não há duas cidades iguais. Em Barcelona, por exemplo, mobilidade, consumo de água e educação são as principais prioridades. Três horas a oeste por trem, em Madri, os cidadãos estão focados em questões relacionadas ao aquecimento global, disse Caballero.
  • Reúna os dados existentes. Depois de priorizar os problemas que precisa resolver, procure os dados relevantes que a cidade já tem. "As cidades têm petabytes de dados que já são coletados regularmente", disse Talbott. Você pode combinar e analisar as informações existentes e começar a imaginar novas soluções.
  • Crie alianças com a indústria privada e as universidades. Haverá um enorme interesse comercial em monetizar as soluções futuras da cidade. Para proteger a qualidade de vida e os interesses de seus habitantes, os líderes municipais precisarão ser proativos e estabelecer parcerias que deem suporte a soluções focadas nos cidadãos.
  • Defina princípios ou direitos digitais. A tecnologia está avançando rapidamente e as leis atuais sobre privacidade e uso de dados não acompanharam totalmente as preocupações dos cidadãos. As cidades precisarão definir um conjunto de princípios digitais e tornar claro o retorno que estão oferecendo aos cidadãos por sua contribuição digital para a vida urbana, o planejamento e a resolução de problemas. Em novembro de 2018, as cidades de Nova York, Amsterdã e Barcelona lançaram conjuntamente a Cities Coalition for Digital Rights para criar políticas, ferramentas e recursos que promovem e protegem dados pessoais.
"Os líderes precisam se concentrar nos pensadores para que resolvam essas questões, no caso, as universidades e os "think tanks, e reconhecer que temos que fazer algumas experimentações para descobrir como será o futuro", disse Talbott. "As cidades não podem apenas ficar paradas e rejeitarem os riscos. Na prática, é quase certo que vamos fazer algo errado".

Rumo a um futuro mais inteligente

Até 2050, 68% da população mundial viverá em cidades, de acordo com projeções de 2018 fornecidas pelas Nações Unidas. Desafios em termos de desenvolvimento econômico, inclusão social, segurança, sustentabilidade, infraestrutura, mobilidade, habitação e qualidade de vida continuarão aglomerando à medida que as áreas urbanas crescerem. As cidades devem se tornar realmente inteligentes para enfrentar esses desafios, ou não continuarão crescendo economicamente. E quando as cidades não crescem, as pessoas vão embora, deixando para trás as marcas da decadência.

Como a influente jornalista e defensora do planejamento urbano, Jane Jacobs, diz: "As cidades têm a capacidade de fornecer algo para todos somente porque, e somente quando, elas são criadas por todos". Os primeiros esforços de cidades inteligentes abriram os olhos de cidadãos e funcionários públicos sobre como isso pode ser possível na era digital.

Novos recursos como IA, funções analíticas de Big Data e tecnologias IoT emergiram com a promessa de ajudar os municípios a resolver muitos de seus maiores problemas. Essas mesmas tecnologias também podem ser usadas para capacitar os habitantes a participarem na dinâmica da operação e tomada de decisões da cidade. O futuro pertencerá àquelas cidades que colocarem a cidadania no centro do seu novo mundo urbano.

Sobre os autores

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Michael Rander
atua como Diretor de Marketing e Analista Líder no centro de pesquisa SAP Insights.

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Stephanie Overby
é editora e escritora independente, focada na intersecção dos negócios com a tecnologia.

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